Prezada Sra. Olivete Salmória,
Foi com muita tristeza que li sua matéria intitulada “a velha araucária”. A Prefeitura Municipal de Lages está optando pelo destombamento e corte de um dos símbolos da cidade: o pinheiro araucária localizado na rua Cândido Ramos. Vou contextualizar a situação e a partir disso peço seu apoio no sentido de esclarecer a questão para o público e evitar que um grande equívoco seja cometido.
Ao contrário do que lhe informaram esta árvore foi plantada em 1927 pelo meu tio Antônio Martinho Walmor Ribas. Tem, portanto, 89 anos e simplesmente não tem como ser chamada de “velha ou muito velha”. Afirmo isso com base em evidências científicas: segundo levantamentos feitos pelo eminente Engenheiro Florestal Dr. Paulo Ernani Carvalho, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária/EMBRAPA a araucária “é arvore longeva, atingindo, em média, entre 140 e 250 anos, existindo exemplares, de acordo com os anéis de crescimento, com até 386 anos de idade” (Circular Técnica n 60 da EMBRAPA Florestas datada de 2002 e disponível em https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/304455/1/CT0060.pdf). Estamos então falando de uma árvore adulta que precisa de mais 51 anos para chegar no limite mínimo do tempo esperado para ter risco de queda por senescência (140 anos).
A queda de galhos velhos é fenômeno natural que ocorre com qualquer árvore, mas se torna mais crítica pelo tamanho que atinge a araucária. Em função disso durante décadas esta árvore foi mantida por meu pai Evaldo Amaral que tinha um especial carinho por ela. Depois que me formei em agronomia em 1986 passei a auxiliá-lo nas ações. Na década de 1990 meu pai conseguiu uma empresa de Curitiba que podou diversos galhos e amarrou os restantes com cabos de aço a um custo bastante significativo que ele arcou, pois a Lei estabelece que a manutenção da árvore tombada é de responsabilidade do proprietário. Foi um trabalho tão bem feito que somente voltamos a preocupar com os galhos da araucária quase 20 anos depois.
Como não localizamos mais a empresa de Curitiba entre 2011 e 2014 tivemos dificuldade para viabilizar a poda o que acabou ocorrendo somente em 2014 com apoio da Secretaria Municipal do Meio Ambiente na figura do Engo. Agrônomo Giovanni Tomazzelli Guesser que viabilizou uma pessoa para realizar a poda e acompanhou comigo o trabalho. Mais uma vez o custo da contratação da pessoa e aluguel de guindaste foi nosso.
Agora novos galhos devem ser retirados, mas não existe qualquer justificativa o corte da árvore. Digo isso como Engenheiro Agrônomo que trabalhou na FATMA e lecionou silvicultura em universidade. A árvore não está doente e não apresenta ataque de pragas que possa a colocar em risco de queda. A única questão a ser resolvida é a poda de galhos velhos.
Como hoje o terreno pertence outra pessoa seria muito importante se o poder público municipal, ao invés de optar pela saída simplória de cortar a árvore, procurasse intermediar junto a outros municípios que contam com inúmeras araucárias como Gramado, Canela, Curitiba para localizar empresa ou pessoa especializada para fazer o serviço. Talvez até seja possível viabilizar novamente o amarrio dos galhos com cabos de aço. Aí teríamos mais 15 – 20 anos sem preocupação com os galhos. A responsabilidade da manutenção da árvore é do proprietário, mas é óbvio que em uma situação dessa o poder público tem que atuar como facilitador do processo (viabilizando contatos com CELESC para liberar escada que alcance o topo da árvore, possibilitando contato com empresas/pessoas que possam fazer a poda, etc).
Sra. Olivette, o corte da árvore é um tremendo contrassenso com uma cidade que abriga a Festa Nacional do Pinhão. Canela, Gramado e Curitiba capricham na manutenção das árvores que representam a história e a cultura da região. Lages vai trocar um frondoso exemplar nativo por 50 árvores exóticas que não chegam a 2 metros de altura: a escovinha de garrafa (nome científico Callistemon viminalis) que é oriunda da Oceania.
Isso é simbólico: será que mais uma vez vamos trocar os valores locais por produtos importados de outras partes do mundo que, apesar de bonitos, nada tem a ver com nossa flora e cultura regionais ?
Eduardo Antônio Ribas Amaral
Engenheiro Agrônomo – CREA/SC n. 25.190
Mestre em Agroecossistemas pela UFSC
Auditor Fiscal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento