Um espaço para o ex-deputado Coruja

LENDA URBANA!

Meu primeiro contato com o Hospital Nossa Senhora dos Prazeres foi na infância – como paciente. Primeiro, um corte no pé, consequência de uma partida de futebol. Depois, um corte na cabeça. Enquanto procurava umas minhocas para usar em uma pescaria, fiquei ao alcance de uma enxada (que um amigo manejava). Foi necessário sutura.

Na adolescência, Nereu Lima me contou uma lenda urbana. Segundo o imaginário popular, alguns pacientes do hospital esvaziavam os penicos pela janela. Quem passasse pela Rua Lauro Muller, na calçada ao lado do hospital, tinha sorte se saísse apenas úmido. Evidentemente, nunca vi ou conheci alguém que tivesse sido vítima dessa tragédia. No entanto, parodiando a frase lapidar do filme “O homem que Matou o Facínora” (dir. John Ford, 1962)*, cabe dizer que: “Quando a lenda for maior que o fato, publique-se a lenda”.

Comecei, a trabalhar como médico, no HNSP, no início dos anos 1980. Outros tempos. Não havia as UTIs de hoje. Os doentes mais graves ou ficavam no quarto ou na sala ou eram colocados juntos, em um ambiente que não tinha enfermeiro e/ou médico de plantão. O plantonista da emergência era o responsável por cuidar destes pacientes e, simultaneamente, de todos aqueles que estavam internados no hospital.

Naquela época não existiam fisioterapeutas, nutricionistas e outras áreas correlatas. Qualquer profissional que trabalhasse na atividade era denominado de enfermeiro(a). Habitualmente alguém começava trabalhando nos serviços gerais, adquiria prática e mudava para a enfermagem. Tempos difíceis, mas muito gratificantes.

Muitas situações hilárias também ocorreram. Uma das mais famosas (ouvi, não vi) foi o relatório de enfermagem de um paciente da psiquiatria. Foi, mais ou menos, assim:

Dia x
10 horas – Paciente agitado. Quer se apinchar pela janela. Amarremo.
13 horas – Paciente mais carmo. Sortemo.
17 horas – Paciente se apinchou pela janela. Se quebro intero.

Outra história, e que aconteceu comigo, foi a seguinte: Passava pelo corredor e fui chamado por uma “enfermeira”, que trabalhava na sala que era chamada de UTI. Com aparência aflita, ela me disse: “Doutor, o doente está vivo”. Examinei o paciente (doença terminal), que recebia cuidados paliativos, e verifiquei que ele estava estável. Conversando com a enfermeira, questionei do porque ter sido chamado. Ela me informou que um colega tinha passado pela “UTI” e, ao constatar a morte do paciente, anotou no prontuário. Diante do inusitado da situação, decidi o que me pareceu mais razoável para aquele momento: suspendi o óbito.

*Na opinião de alguns críticos de cinema, “O Homem Que Matou o Facínora”, com John Wayne, é o melhor filme de faroeste de todos os tempos.

*A gravura utilizada para ilustrar este post, “La visita al hospital”, é do artista plástico franco-espanhol Luis Jimenez Aranda (1845-1928).

Fernando (Coruja)Agustini

2 comentários em “Um espaço para o ex-deputado Coruja”

  1. Excelente. Com certeza tem muito mais histórias interessantes a serem contadas.
    O bom e velho hospital sempre se reinventando e salvando muitas vidas, graças ao trabalho dedicado de tantos.

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