Küster conta sua história de menino pobre do interior de São Joaquim a deputado que ajudou a elaborar a atual constituição

A TV Câmara de Lages recebeu o segundo entrevistado do programa “Nossa História”. Trata-se do ex-vereador de Lages e de Florianópolis, cinco vezes deputado estadual, deputado federal e constituinte, Francisco de Assis Küster. 

Casado com Hedwiges Pryciuk Küster, pai de seis filhos: Elias, Eneas, Lucilene, Zenha Regina, Liliam e Francisco Júnior. Francisco Küster é um homem de convicções e temperamento forte, que concluiu o segundo grau (atual ensino médio) já como deputado. Formado em técnico em edificações, lamenta não ter cursado Direito ao longo da vida, entretanto, orgulha-se do fato de que todos os seus filhos são graduados no ensino superior.

O menino pobre do interior de São Joaquim que se tornou líder

Em 31 de outubro de 1943, nascia no interior de São Joaquim-SC, “em uma casa que não tinha nem assoalho”, Francisco de Assis Küster. Uma vez que seu o pai, Gervásio Pereira Küster, foi contratado como carpinteiro do 1º Batalhão Ferroviário, toda a família se mudou para o interior de Lages e fixou residência junto à estação ferroviária de Invernadinha. Küster se emocionou ao lembrar que a mãe, Maria de Melo, além de todos os afazeres domésticos, ainda lavava as roupas dos soldados para ajudar nas despesas do lar.

Mais velho de 11 irmãos, Francisco não tardou a ajudar a família. Estudou até a quarta série e com 11 anos passou a trabalhar como office-boy do Batalhão. Dentro da corporação foi carpinteiro, pedreiro e gerente na Cooperativa dos Funcionários, de onde surgiu o interesse pela representação pública. Desta base obteve sua primeira eleição em 1969, como vereador de Lages, com 468 votos pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição ao governo militar. Votação que foi mais do que triplicada (1.574 votos) em 1972, quando se reelegeu ao cargo.

Ainda em meio ao segundo mandato, lançou-se candidato ao parlamento catarinense, do qual logrou êxito além das expectativas, sendo eleito com 13.305 votos e assumindo como deputado estadual em 1975. Feito repetido duas vezes consecutivas: em 1978 (com 18.746 votos) e em 1982 (com 31.753 votos). Foi presidente de comissões e líder de seu partido. Aqueles eram outros tempos, Küster relembra que quando chegou à porta da Assembleia Legislativa de Santa Catarina perguntou a um soldado se era ali mesmo que ficava a Alesc já que nunca havia estado lá antes.

“De zé ninguém a deputado constituinte”

Em 1986, Francisco Küster atingiu o ápice de sua carreira política, sendo eleito deputado federal constituinte por Santa Catarina, já pelo PMDB, com 46.032 votos. “De um zé ninguém a deputado constituinte, mas tudo tem uma história, e na missão que o Patrão Véio me deu sempre houve garra, compreensão e apoio do povo”, resume. Uma trajetória um tanto quanto diferente de parte considerável dos atuais congressistas: “Hoje temos muitos aproveitadores e mal-intencionados que, na ausência dos bons representantes, tomaram estes espaços”, lamenta.

Sobre a Assembleia Constituinte, que resultou na Constituição de 1988, se orgulha de ter trabalhado no que considera um novo ordenamento jurídico para o país, que até então era regido pelo autoritarismo do regime militar. “Ajudei a construir situações que elevaram o reconhecimento dos direitos das pessoas”, afirma. Ele cita políticos como Ulysses Guimarães e Mario Covas, os quais considera fundamentais para a redemocratização do Brasil. “Eram pessoas com um propósito, que foram para Brasília para cumprir uma missão e não para arrumar suas próprias vidas. O Velho nos deixou quatro anos sem reajustes”, conta sobre Guimarães, então líder da Constituinte.

“O nosso papel era melhorar a vida das pessoas. Nós ajudamos a criar o SUS (Sistema Único de Saúde), pois antes a pessoa morria tomando chazinho em casa porque não havia médicos. Fizemos ter na marra”, aponta Francisco Küster, no entanto, ele lamenta que a “Constituição virou uma colcha de retalhos”, de muitos direitos e poucos deveres. Se fosse hoje, admite que lutaria para que a Constituição Cidadã fosse mais enxuta. “Para dar o troco nos militares e pela redemocratização, colocamos tudo na Constituição”, admite.

Para Küster, falta caráter para os representantes dos três poderes

Uma reclamação do político serrano é sobre as atribuições dos três poderes, cujas estruturas demandam milhões de reais em mordomias, dinheiro o qual entende que deveria ser usado na infraestrutura e na saúde da nação. “Hoje vemos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) desvirtuar esse papel, eles não deveriam ser indicados por serem advogados de partidos políticos, mas sim através de concursos públicos entre os magistrados. O Congresso tem pessoas de moral desqualificada chefiando comissões de inquérito e o Executivo um presidente sem o cabedal de valores necessário para a função, ele não pode entrar em discussões de moleques. (…) É preciso uma limpeza de caráter, um banho de caráter e de ética”, afirma.

Para Küster, a reeleição no Executivo é um mal da política brasileira. “Entram já pensando em se reeleger, tanto que tudo melhora nos anos de eleição”. Para ele, o ideal seria um mandato de cinco anos para prefeitos, governadores e presidente e um máximo de três mandatos no Legislativo, por entender que a experiência ajuda na qualidade de debates no Parlamento.

Após décadas de militância, deixou o PMDB em 1988 por considerar que o partido tinha sido competente no papel de redemocratização do país, mas não possuía um projeto para o dia seguinte. Junto de outros dissidentes, fundou o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), agremiação inspirada na social democracia europeia, e foi o primeiro presidente estadual da sigla, que fornecia curso de ética aos afiliados e capacitação aos candidatos a vereador. Pelo PSDB, tentou a reeleição ao Congresso em 1990, mas por falta de legenda não alcançou o intento, ficando como 1º suplente, mas sem assumir vaga.

“Quem ama Lages tem que acompanhar a história de Lages”

Momentaneamente afastado da vida pública, retornou a Florianópolis, mas eis que em mais um acaso do destino foi flagrado trabalhando na área da construção civil, de pá e picareta na mão, por uma equipe de reportagem da revista Veja, segundo ele, “para fazer umas casinhas e obter uma renda a mais”. Tal fato novamente despertou o interesse das pessoas e dos políticos e fez surgir o convite para ser candidato a vereador, desta vez pela capital catarinense. Para sua surpresa, foi o mais votado daquele pleito, sendo líder do governo na Câmara.

Dois anos depois, lançou-se novamente como candidato a deputado estadual e pela quarta vez foi eleito, com 10.865 votos. Único representante do PSDB na Alesc, Francisco Küster conseguiu a proeza de se tornar presidente da Assembleia Legislativa em 1997, contando com o apoio, inclusive, de antigos adversários políticos, como o também deputado Ivan Ranzolin. Desta experiência, restou o arrependimento da má condução do processo de impeachment não efetivado do então governador Paulo Afonso Vieira, sobretudo em relação ao vice, José Augusto Hülse, o qual não acreditava que tivesse qualquer culpa. “Foi a única vez na minha vida que não reagi e levei muito desaforo para casa. (…) Ali começou meu desencanto com a política”, relembra.

Após este período como legislador, foi convidado a presidir às Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc) em 1999, tendo enfrentado greves sindicais no período. Em 2002, concorreu outra vez a uma vaga na Alesc, ficando na primeira suplência, com 13.033 votos recebidos, mas desta vez foi convocado a assumir vaga devido ao afastamento do deputado Dado Cherem. Abdicou da vaga em 2006 ao tomar posse da Secretaria de Articulação Política da Prefeitura de Florianópolis. Ao fim do mesmo ano, deixou o cargo e assumiu como Secretário de Desenvolvimento Regional em Lages, no governo de Luiz Henrique da Silveira. Foi nesse período que intermediou, durante a Festa do Pinhão, um encontro entre dois antigos desafetos políticos: LHS e Raimundo Colombo.

Após a vida pública, retornou ao ramo da construção civil, que lhe rendeu um bom dinheiro com a venda de umas “casinhas”, algumas das quais verdadeiros casarões na capital catarinense. Reside em Florianópolis, mas vez ou outra passa um tempo no seu sítio em Lages com a esposa Hedwiges. Na “Princesa da Serra”, também foi responsável pelo programa “Direitos Iguais”, que era transmitido nas manhãs de domingo pela Rádio Clube e onde, segundo ele, gostava de falar de “utopias, sonhos e esperanças”. Foi mais uma vítima da pandemia, tendo se encerrado em 2020. 

17 comentários em “Küster conta sua história de menino pobre do interior de São Joaquim a deputado que ajudou a elaborar a atual constituição”

  1. Mais uma ÁGUIA que virou galinha… seus adestramento começou em 1999 , quando assumiu como Presidente das Centrais Elétricas de Santa Catarina (CELESC), do então filhote da oligarquia bornhausen Esperidião Amim…

    Hoje cansado da politicalha que ele mesmo ajudou a construir reclama da unica boa obra da sua vida A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988.. realmente o Kuster de agora, não teria coragem de votar como votou em 1988… Era AGUIA, virou galinha…

    Responder
  2. que comentário mais triste,garanto que vc.não deve ter a metade da história do depKUSTER,ele não deve pertencer ao teu partido,mas poderia respeitar um pco a hist´[oria de pessoas que ao seu modo ajudaram.,vc.deve ser a perfeição em pessoa.

    Responder
    • Não escreva bobagens… cada têm a sua história… eu tenho a minha… e fiz e faço sim.. el Pais… muita coisa na construção desta grande Pais (apesar dos políticos pequenos que tem)… não leve esta questão para lado partidário… parem com isso… a vida não se resume a siglas… elevem um pouco o debate…

      Responder
  3. Qto ao comentário do Rui, infelizmente não conhece a história política de Lages. Kkk. Qto ao ex deputado. Esqueceu de citar quem lhe deu visibilidade.!! Ou seja! Juarez furtado e Dirceu carneiro.

    Responder
    • Ao afirmar que desconheço a história política de Lages, você não faz ideia da IMENSA besteira que escreveu… Em 08 de Setembro de 1771 tomaram posse de seus cargos os primeiros Vereadores de Lages… Pergunte-me o que quiser depois disso… Adoro falar sobre a mãe de todas as oligarquias catarinenses… a Oligarquia Ramos… Mas isso não interessa agora…

      Meu Pai era MDBista “roxo”… Meu primeiro voto ajudou a eleger Kuster Deputado Estadual, cargo que ele ocupou em 1975… depois desse primeiro voto todos os demais cargos que ele ocupou (enquanto MDBista), inclusive para Deputado Federal a Constituinte, ele levou meu voto… Mas ele não foi o único a se agalinhar… muitos outros MDBistas históricos se deixaram domesticar iludidos que foram pela canto da sereia do poder…

      Agora querem falar mal da politica cujas sementes eles mesmos plantaram…
      Querem se “redimir” da Única Grande LEI DESTE PAIS… QUE AJUDARAM A CONSTRUIR… e que enquanto vigorou na sua integra transformou este pais em algo parecido com uma civilização… A ÁGUIA voou… voou alto… mas decidiu pousar e virar galinha…

      Responder
  4. Dezenas de figuras públicas Lageanas tiveram seu momento.
    No entanto, se não conseguiram com seus feitos e mal feitos deixar sua marca na memória dos lageanos então sugiro que abram um museu!!!

    É o único lugar onde vão encontrar registro perene.

    No mais fiquem quietos. Saudosismo não gera emprego, não realiza obras.

    Queremos uma Lages pra frente, próspera e bonita!

    Responder
  5. Robson, Lages só perdeu.
    Q contexto??!!

    Nós últimos 50 anos só empobrecendo.

    Cadê os empregos?!!
    Cadê a capital do turismo rural?
    Nossa construção social e política o que significa hoje?
    Ninguém em Joinville, por exemplo, está falando do Luís Henrique, mesmo que ele tenha méritos!!
    Políticos são servidores públicos, não são Santos para ficar referenciando!!

    Responder
  6. Robson na contra mão.
    Enquanto o mundo todo derruba estátuas de políticos ele quer monumento para eles. Essa é sua construção social ou política

    Responder
  7. Fico feliz pelo texto e relembrar o histórico político do Dep. Kuster. Mesmo sem ter o talento necessário, comecei a gostar de politica em 1982 quando o Deputado ia a Bom Retiro fazer campanha e dormia na cada do meu pai.
    Sempre tive por ele o maior respeito e admiração.
    Como tantos bons políticos lageanos,
    como Dirceu Carneiro, Juarez Furtado, Paulo Duarte, teve seu tempo e sua relevante importância.
    Pena não ter sido prefeito, faltou em seu histórico e certeza teria sido muito bom para Lages.

    Responder
    • Com certeza a matéria é excelente, conta um pouco da história de um nobre e leal político.
      Orgulho para nossa família, faltou a fala de que como constituinte, Küster recebeu o prêmio de Constituinte nota 10, por nunca ter faltado a uma sessão.

      Responder
  8. Ótima matéria! Orgulho de ler tanta coisa legal sobre alguém que trabalhou e lutou por sua cidade e estado! Diferente de quem se esconde atrás de um teclado pra militar sem ao menos tirar o traseiro do banco pra fazer alguma coisa útil! Se fez ,mostre, afinal a memória do povo fraca é precisa de matérias assim pra relembrar feitos de pessoas importantes!!!

    Responder

Deixe um comentário