O Instituto dos Arquitetos do Brasil Núcleo Lages vem manifestar suas considerações a respeito da forma como têm sido tratados o Patrimônio Cultural paisagístico, arquitetônico e urbanístico em Lages.
As possibilidades de alteração na configuração espacial de uma cidade com marcos arquitetônicos e espaços públicos centenários como Lages sempre vão gerar (ou deveriam) inquietações nas pessoas que utilizam desses espaços diariamente. Por parte dos profissionais arquitetos, devido à sua visão técnica e, principalmente, humanista das coisas, a sensibilidade em relação a essas questões é ainda maior.
Cabe ao Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), enquanto entidade profissional, cultural e independente, contribuir efetivamente com a preservação do patrimônio cultural, bem como do meio ambiente, propondo medidas de proteção e revitalização adequadas. Em determinados momentos, como o atual, cabe a nós, arquitetos-urbanistas, lançarmos luz às peculiaridades contidas no cotidiano de nossas cidades, pois falar sobre Patrimônio Cultural requer uma compreensão que está além do senso comum
Podemos utilizar como exemplo uma escultura, uma praça, uma edificação ou uma festa religiosa. Todas são expressões de uma cultura. Porém, o que faz alguma dessas se tornarem patrimônio cultural são os significados que têm para as pessoas de uma forma coletiva. Ou seja, serão patrimônio cultural se tiverem significado para um coletivo de pessoas. As edificações e espaços públicos, especificamente, podem ter significado pelo seu uso, pelo método construtivo, por fazerem parte de um conjunto ou pela excepcionalidade de suas formas.
Diante disso, o que se deve considerar a respeito do Patrimônio Cultural lageano, de modo geral, é que a ausência de participação da comunidade (população, acadêmicos e profissionais) na tomada de decisões sobre esse assunto gera, na maioria das ocasiões – e, isso historicamente se comprova – narrativas de apenas um ponto de vista e, por consequência, perdas irreparáveis ao patrimônio. Edificações em bom estado de conservação já foram demolidas sob justificativas baseadas em suposições ou apenas vontades políticas e interesses econômicos de pequenos grupos com o poder de decisão. Mas não cabe a nós apontarmos culpados ou retomarmos situações que, hoje, infelizmente não podemos reparar.
Cabe, no entanto, sim, refletir. Tomando como exemplo recente, o colégio Aristiliano Ramos. Anos postergando a decisão pela demolição, o poder público e nós, sociedade – um pela força de decisão, outro pela passividade – contribuíram para que se colocasse a baixo uma escola. Uma escola. Espaço tão necessário e tão importante para a sociedade e, se não fosse apenas isso, um lugar que representou o início da educação superior na região e posteriormente formou tantos jovens. Na sociedade das aparências não é de se espantar que a ausência de ornamentações, ou inadequação ao termo clichê “estilo antiguinho”, tenham sido justificativas para derrubar uma escola. Isso não é o que queremos daqui para frente.
Devemos refletir a respeito, porque vive-se um novo tempo. Vivemos o tempo do pensamento criativo, da pluralidade e da força, como bem propõe o projeto Criaticidade para o propósito de Lages. Isso significa mudança. Construir esse futuro é entender que preservar a história não significa negar o desenvolvimento, nem as possibilidades que o mundo contemporâneo pode oferecer. Pelo contrário, saber sobre nossas raízes e conhecermo-nos é fundamental para traçarmos objetivos enquanto cidade, enquanto sociedade.
Em 2019, é irresponsável que ainda existam planos/projetos para as cidades e seus espaços baseados na ideia de que há apenas caminhos extremos (novo x velho, sustentabilidade x desenvolvimento, tradição x inovação) e sem uma visão multidisciplinar do assunto. Não se constrói nada sozinho. Vivemos a realidade de um mundo globalizado em constante mudança que desafia todos os dias os modelos e paradigmas de nossa sociedade. As cidades, por sua vez, entendidas como materialização complexa da arquitetura e do urbanismo, refletem as mudanças de nossa época e, por isso, jamais podemos nos afastar da visão de constante aprendizado e zelo para que seja possível conciliar os desafios relacionados aos fatores e agentes que modificam o espaço. Em outras palavras, significa compreender que existem profissionais preparados para contribuir com as especificidades de cada situação, cada um na sua área de atuação, mas que, quando somadas, vão gerar intervenções com impactos positivos na comunidade. Isso, claro, se inicialmente a comunidade for ouvida e suas demandas consideradas na execução dos projetos.
Neste ponto da conversa chegamos a outra questão à qual devemos nos atentar nessa construção de futuro: o projeto. Projetar, basicamente, significa fazer a projeção de como irá se concretizar alguma coisa. Tarefa essa que não é nada simples e exige compromisso com a realidade, pois fora do gabinete de uma secretaria ou de um escritório, o que existe é um ambiente complexo e imperfeito.
Fazer intervenções espaciais exige, mais do que a preocupação econômica, conciliar outros fatores. Buscar o equilíbrio para a solução dos diversos conflitos entre estes. Orientação solar, ventilação e iluminação naturais, acessibilidade, legislação urbanística, orçamento disponível, necessidades dos usuários, paisagem que fica ao redor do local onde se está projetando…para citar apenas alguns fatores importantes para qualquer projeto. Projetar é essencialmente parte do trabalho de arquitetos-urbanistas e uma oportunidade. Salientar isso não significa excluir o trabalho de outros profissionais técnicos ligados ao urbanismo, arquitetura e construção civil. Significa coordenar diferentes visões para que se complementem e possam potencializar os resultados desejados. É um caminho para mudarmos o contexto atual em que: sobressaem-se interesses de mercado, interesses políticos e particulares em detrimento das necessidades coletivas; há crescimento e surgimento de cidades sem planejamento, desigualdades sociais agravadas, demandas esquecidas, patrimônio cultural que se perde, necessidades urgentes e, junto, poucos recursos disponíveis. Sim, projetar significa aproveitar da melhor forma os recursos disponíveis e isso impacta diretamente no nosso bolso, pois quem paga a conta da execução de um projeto público de qualidade são os mesmos contribuintes que pagam a conta para espaços públicos sem acessibilidade, praças sem vegetação ou o pior: obras sem prazo que consomem milhões dos recursos públicos e são alvo fácil para a corrupção.
Por fim, o IAB Núcleo Lages defende que as mudanças em nossa cidade possam ser capazes de envolver a comunidade no processo, sendo preciso para isso: ouvir, primeiramente; pensar as questões com uma visão multidisciplinar; desenvolver soluções técnicas que possam atender àquilo que se demanda em concordância com a realidade de seu contexto; por fim, respeitar os projetos propostos a partir desse processo participativo. Assim, através de uma postura ética, honesta, consciente e com engajamento podemos contribuir para uma cidade viva, que cria seu futuro, sabendo carregar consigo suas raízes.
Rafael Marcos Zatta Krahl
Vice-presidente do IAB Núcleo Lages
Parabéns Olivete por dar espaço a uma entidade que sempre foi questionadora das mudanças que se faz em Lages e particularmente tenho um apreço muito grande pelo IAB, pois frequentei em 81 na UFSC o curso de Arquitetura e Urbanismo e que sempre foi fundamental para que Florianópolis fosse o que é hoje. Belo texto, muitas vezs fico amargurado por ver empreiteiros lageanos, ou se dizem ser, que derrubam casarões antigos de patrimônio incalculável para erguerem prédiozinhos de 3 andares em pleno centro da cidade. É claro que a nossa população e autoridades procuram soluções populares que deem votos e visibilidade política, o assunto arquitetura e patrimônio é muito complexo e permeia as cabeças como se fosse um fantasma comunista e que assusta os mais desavisados. Parabéns aos guris do IAB e que continuem a questionar a nossa realidade de cidade ainda sem cultura e aonde os coronéis ditam os comportamentos, não se engessem como uma ACIL ou OAB, aonde os paletós valem mais do que ações sociais.Sigam, em frente.
Ótimo texto do IAB claro e oportuno. Um mandato eleitoral não significa poderes plenos de executar tudo que vem ao pensamento. Querem revolucionar a arquitetura urbanística de uma cidade, em 4 anos. E as pessoas que estudaram no colégio que ali havia, como contarão aos seus filhos e netos, que Lages, uma cidade das mais antigas de SC contava com 3 escolas públicas no centro, agora só uma? – e que de certa forma para os alunos , o único contato do cidadão do bairro com o centro de sua cidade. Perde-se em identificação, em cultura, e em história. Depois reclamam que a sociedade está individualista, egoísta e egocêntrica nossos atos estão nos afastando uns dos outros. E na arquitetura não é diferente quando só se pensa em perpetuar-se no poder.